sábado, 4 de setembro de 2010

A noite nublada, fim ou início

Meus olhos antes tudo viam, agora presos em vários fios negros, cabelos de um preto puro, que me encantam, e deixam a lua perdida, as estrelas escassas, numa visão completamente obnubilada tenho agora.

Olhos que não olham diretamente em outros, e que se perdem, até mesmo a capacidade de identificar as coisas é perdida, não sei mais nada, mas os seus cabelos negros me atormentam, se eles trazem dor ou prazer, e, se me farão alegre ou triste também não o sei, apenas estou perdido em busca da tua mão para um afago.

E diferente do que disse o poeta Augusto dos Anjos nos seus "Versos Íntimos", não sei se "a mão que afaga é a mesma que apedreja", nada é percebido entre estas nuvens negras no céu, ou através dos teus cabelos, e a ansiedade aos poucos me entorpece, em breve os vultos se tornam quimeras.

Só resta a ti agora o afago ou a pedra, antes que me perca em meio a indefinição, antes prefiro a pedra a tornar a este amor, este insólito amor que impertinente me tira o sono e a concentração para viajar por entre as nuvens negras da tua indecisão, asfixiado nos teus cabelos pretos, sem ao menos saber o que está por vir, se o breu da solidão ou o amanhecer de uma paixão.


Augusto dos Anjos - Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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